sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um conto e infinitas possibilidades (...)

Bem, fui designada a continuar esse conto que Jacque iniciou e passou para Gutor que passou para mim que vou passar para alguém, que vai dar sequência. O importante é seguir em frente, independente de para onde se vá. ;)

(...) Morgana acordou com as batidas na porta, dormira tão profundamente que nem percebeu a chuva. Pela frecha da janela o céu parecia nublado e cinza, ela gostava quando ele ficava assim, gostava de olhá-lo depois do temporal, no entanto dessa vez não sentiu nenhuma vontade de ir até a sacada.
Havia por volta de meia hora que sua mãe batia insistentemente na porta suplicando que ela fizesse compahia ao filho mais novo dos Dalens, seus mais novos vizinhos. - Política da boa vizinhança, - ela dizia, mas no fundo só achava saudável que a filha pudesse conversar com mais alguém depois de imiscuir-se durante duas semanas inteiras. Vocês sabem... desde que ele se foi e coincidentemente, começaram as férias do colégio.
Na primeira vez que ouviu as batidas Morgana até desceu as escadas correndo, sabe essa coisa que a esperança dura mas também finda, é mentira. A esperança não acaba. Por um lado seria até bom se acabasse mesmo, pois levaria consigo toda essa espera infernal. Mas, mais uma vez não era ele, e ela decidiu então que ele não viria mais. Talvez as pessoas tenham coisas importantes a fazer. E isso deve ser respeitado, independente de quem seja. E já que era assim, ela não queria mais sair do quarto, queria apenas ficar quieta no seu canto, mas as pessoas tamém não entendem isso.
Enfim, cansada das importunas batidas foi até a janela, de lá podia ver o garotinho loiro com seu cachorro mesclado e sua cara de solidão. Engraçado, ele também parecia estar em permanente estado de espera, pensou. Vestiu o casaco listrado que ganhara "dele" no natal do ano passado, abriu a porta e caminhou até a geladeira, parecia desnorteada. Tomou um copo de leite e passou mais alguns instantes em frente a porta aberta, até se dirigir finalmente à varanda. Lílian ficou olhando da escada enquanto a filha ia em direção de seu mais novo amigo, como a cena de um filme em que a gente teme o que vai acontecer em seguida. Só que no caso dela era um filme bem triste. Tenho a impressão de que algo se iluminou naquele espaço. Talvez porque desde que Mike se mudara, aquele era como o primeiro vestígio humano, e ele, ao contrário dela, achava os dias chuvosos insuportáveis e apáticos.
- Oi. Bem vindo ao inferno. - ela disse quebrando o silêncio. Mesmo sabendo que aquelas não eram as mais apropriadas palavras para uma conversa entre crianças de oito anos de idade.

Minha missão acaba aqui, enquanto que a sua continua Sulivan. Good luck!
PS: Não sei porque porque mas isso me lembra a música Escape, do Muse.

terça-feira, 3 de novembro de 2009



highway

Estamos na estrada, a paisagem passa bonita, finalmente verde depois da últimas chuvas no final de semana. Então Alx Rose não estava mentindo quando falava das chuvas de novembro, bastante nostáugicas. A cidade vai ficando para trás, quente como um mormaço, ora o céu fica nublado e cai uma chuva rápida, fininha, mas a maré de calor não dá trégua. - Variações climáticas né?, -pergunta o Marvin sempre que estamos na varanda. Ainda gosto de perder tempo na varanda enquanto a chuva cai e molha nossas vidas.
Estou lendo "clube do filme" de David gilmour. Na poltrona ao meu lado Marv lê também, "Meu nome é Will". Às vezes a gente parece mesmo dois nerds, se interrompendo de tempo em tempo com nossas perguntas eloquentes. Ele me mostra núvens em forma de paraquedistas despreocupados, ainda quero pular de para-quedas, mesmo sabendo que não me tornarei despreocupada. Não com as coisas assim, precisando de conserto.
...
Marv dorme do meu lado. O sol está quase se pondo, derramando uma tinta alaranjada no céu. Gosto de ir na janela, é interessante ver as coisas passando rapidamente, ficando para trás. - A gente é como esse bioma, eu dizia, ás vezes verde e outras tão cinza. No fone, Chris Cornell gritava "I am not your autumn moon, I'm the night..." Em um determinado momento vejo um cachorro carregar um pássaro ferido para o acostamento. Não sei bem porquê, mas a imagem me fez pensar que ainda podemos consertar a coisas, se quizermos.


Música citada: I Am The Highway (Audioslave)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um carpete verde-oliva, um livro aberto e pote de sorvete. 22:47 da sexta-feira, me bate uma vontade de pedalar na orla. Penso em chamar o Marvin, mas lembro que ele anda tão exausto com esse trabalho novo. Apelo para o bolinha. Ele me olha de canto, meio se espreguiçando e diz que já tava indo dormir, mas se rolar um sorvetinho pode até pensar no meu caso. Cachorro oportunista. Ainda pensei em bater no 9379 quando passei em frente, mas resolvi ir sozinha mesmo. Sozinha nada, reclama Bolinha, e eu? Damos algumas voltas na rua, o bastante para ver o céu estrelado, mesmo poluído, é tão bonito. Quase não há carros na rua, então deixo bolinha ir na frente, gosto de ficar observando os movimentos dele, vendo o pelo amarelado refletir a luz da lua. Engraçado, é como se a gente se conhecesse a anos. Meu irmão o encontrou na rua duas semanas atrás com marcas de maus tratos, tem gente que acha que animal é de polietileno, que feio é só roubar descaradamente e sonegar imposto. Meu pai disse que algumas pessoas que criam cachorros os abandonam quando eles chegam nessa idade. As vezes os olhos dele parecem tristes... As pessoas são medíocres mesmo, chego a conclusão. Passo no fast food e compro um expresso de baunilha. Bolinha me olha com uma cara de cachorro e se anima todo. Lá embaixo, perto do rio tem uma parede de concreto grande onde sempre sento para ver o pôr-do-sol, ficamos lá recostados por um tempo, olhando o movimento da água e o barulho do vento. Tinha um rapaz limpando o carro de um senhor que parecia estar com insônia, parecia satisfeito apesar do horário. Me deixou feliz. Lembrei da senhora que sentou comigo no ônibus ontem na volta da universidade, dizendo que o dinheiro público deveria ser investido apenas em pessoas com futuro promissor, que o resto apenas sobrecarrega o sistema. As pessoas banalizam os sonhos alheios. E eu me sinto bem em ser imune a pelo menos essa espécie de estupidez. Retornamos pelo mesmo caminho. Bolinha me carrega por um longo trecho, me deixo imergir na embriaguês da insanidade... Eu não quero ser sã e melhor que os outros. Quero essa calmaria sem sentido e essa paz envolvente, é tão bom ter tudo e nada ao mesmo tempo...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

(sobre coisas emputecedoras e lamentáveis;)

Seu Frederico é meu vizinho da frente, um senhor barbudo e agradável cujos únicos defeitos são fumar compulsivamente e ouvir Roberta Miranda. Ele a esposa administram o boteco mal amanhado que tem sempre uma coca-cola geladinha. Quando saio para a universidade às seis da matina o vejo polindo a lata-velha. - Joga isso no lixo, seu Fred! Qual é maluca?, ele responde rindo. Tá pensando o quê? O velho é desenrolado...
Achei estranho não tê-lo encontrado nos ultimos dois dias. Minha mãe comentou hoje no café da manhã que ele foi preso na segunda-feira por esquematizar um movimento de protesto ao monopólio do poder do setor de transporte público na cidade. Em resumo, ele juntou umas dez pessoas e interditou uma BR por alguns minutos, tentando chamar a atenção da população para o fato até então desconhecido. Como sempre só conseguiu chamar a polícia. Uma senhora estava comentando no ponto de ônibus que seu esposo também tinha sido preso semana passada porque estava bêbado na rua de casa. Coitado do seu Frederico, parece até que vai ser transferido para o presídio.
Para aqueles que reclamam da justiça, olha ai ela sendo feita. Mais dois bandidos de alta periculosidade presos. Nossas congratulações ao governo pelo trabalho excepcional desenvolvido contra o crime organizado... E essas coisas ainda me deixam inerte. Ver pessoas em seus cargos públicos gastando nosso dinheiro e trabalhando tão pouco. O mais triste é que mais cedo ou mais tarde a gente se descobre almejando os mesmos cargos, a mesma estabilidade, as mesmas coisas sujas... Bando de fdp, será que ninguém percebe que esse mundo ainda tem jeito?

Então é isso, enquanto um dia tiver 24hs e um pôr-do-sol a gente continua assistindo e fazendo o melhor que se pode, um dia depois do outro.
Em suma, quantos dias teremos vivido no fim?

"Por favor, não leve a mal o que estou dizendo ou interprete mal em tempos como esse. Tenho certeza que você os ajudará a ver a luz. A quem nós chamaremos quando sua chuva pesada começar a cair?" (Cruise - Pink Floyd)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o bom da vida é ser besta;


hey Jude, don't make it bad...

Eu hoje despertei atenta.
O calor do quarto nem o barulho dos mosquitos me incomodaram. Havia um céu muito azul e um aroma agradável de grama cortada enquanto o jardineiro passeava lá embaixo. Então isto é a primavera, pensei, essa mistura louca de liberdade e obscuro, de vontade e razão...
Minha mãe deixou um bilhete na geladeira reclamando da hora e do cheiro do capuccino que nem lembro o gosto... "Que o tempo vai cuidando das horas e as horas vão matando o tempo, dizia o Chico Science, isso me lembra do medo infeliz que os pais tem de que os filhos inevitavelmente cresçam.
Quando eu era teenager, tudo que eu queria era me tornar jornalista e sair pelo mundo, ajudar na guerra, na África... isso sempre a deixou puta da vida, o que me provoca risos hoje é perceber que ainda conservo muito disso em mim, mesmo tendo descoberto minhas verdadeiras aptidões, bem distantes do jornalismo. No fundo o que a gente quer mesmo é só ver as coisas se iluminando um pouco... quando se descobre que contribuir não é ser super-homem, mas dar o melhor de nós... E nem sei porque estou dizendo isso, mas me veio o pensamento agora de que escrever me passa a sensação de alforria. Talvez por isso essa falta de inspiração me incomode tanto, porque faz falta o mundo imaginário onde moldo as coisas na minha ideologia furada, embora eu saiba que não é nada disso, que eu na verdade vejo as coisas assim e isso não é o mundo do meu blog como me disseram uma vez, é o meu jeito de ver as coisas, de uma forma meio besta, mas eu gosto de ver assim. Sem espectativas a cerca do caminho, já que como dizia ele, ninguém sabe onde tudo vai dar...

PS: For the galley of the of peace, love and empathy, forgive my lack of inspiration... Sorry.

"Oh, let the sun beat down upon my face, stars to fill my dreamI am a traveler of both time and space, to be where I have beenTo sit with elders of the gentle race, this world has seldom seenThey talk of days for which they sit and wait and all will be revealed..."
[Kashmir - Led Zeppelin]

terça-feira, 8 de setembro de 2009


A vida através da varanda é como um filme futurista, eu dizia enquanto balançavamos os pés fora da janela, imersa na sensação de brisa e vazio. Havia uma garrafa de vinho e o vento parecia agradável lá embaixo, as folhas das palmeiras balançavam como um redemoinho no centro do gramado, enquanto as mais esgueiradas se recostavam na parede, fazendo do espetáculo harmônico algo triste e... belo. Minha mãe me acha estranha por ver beleza em coisas banais. Eu acho estranho as pessoas terem se tornado um bando de andróides. Veja como somos estranhos, eu insistia em falar... parece que vivemos em outro mundo... Tinha uma música de fundo, talvez fosse mesmo Stairway to heaven. Lá embaixo as pessoas passavam com suas sacolas e cachorros, a imensa ponte as levavam em seus caminhos infinitos. Por um momento tentei imaginar o que se passava no pensamento de cada uma delas, mas pessoas parecem meros personargens enquanto se deixam imaginar em nossa embriaguês não-alcóolica. Lembro que quando eu tinha oito anos já não queria mais ganhar bonecos no dia das crianças. Achava infantil imaginar a vida como uma brincadeira perfeita. E eu esperava que o mundo fosse se tornar outra coisa, apesar das previsões da ciência... No fundo eu tenho essa grande frustração, por não ter impedido isso, por ter deixado que chegassemos a esse ponto. Lembro do senhor barbudo que espancaram no ônibus uma vez por causa da passagem... de como as pessoas se tornam pequenas deveras vezes. Esse mundo está estragado mamãe, - eu dizia ao chegar em casa- as coisas não tem mais sentimento. Mas tem. No fundo eu ainda acredito no sentimento, embora agora com bem mais receio que antes. Acredito nas conversas filosóficas que jogamos fora enquanto fluem os acordes do violão, no bem que fazem as caminhadas da faculdade até a orla, nas pessoas que querem mudar o mundo, no amor, na paz, na bondade e até na ideoloia dos mercenários frustrados. Afinal, há uma fumaça de um navio distante no horizonte...

" The child is grown, the dream is gone... And I have become Comfortably numb."

(Comfortably Numb - Pink Floyd)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Change.! Hey you, can you feel me?

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Gosto de olhar as estrelas de cima da pedra depois que volto da faculdade, enquanto meu velho reclama do tempo em frente a tv. Gosto do silêncio lá de cima, da escuridão, da cidade adormecida enquanto o mundo gira sem parar e a gente nem percebe. Gosto de olhar os cachorros na rua, me lembra o vira-lata bolinha que gostava de pipoca e fazia cafuné. As vezes acho que amigos e pais não deviam morrer nunca. Bem, olhar as estrelas talvez seja uma maneira de conversar com eles nos momentos de solidão, me trás pazz.
Não gosto de superproteção. Gosto da chuva inesperada, aquela que pega de surpresa e faz a gente perceber que a felicidade está nas mais minúsculas coisas. Gosto do sabor do vento na janela do ônibus, do balanço na rede, a conversa jogada fora, da sombra de uma árvore bem frondosa. Continuo gostando das caminhadas matinais, acreditando que escrever é a melhor terapia, que a melhor companhia vai ser sempre a música. Algumas coisas continuam mudando, a evolução do Darwin vai me impressionar forever. Aprendi a esperar final do livro. A ouvir grosserias sem a necessidade de revidá-las. A deixar que o tempo corra naturalmente, sem querer apressar as coisas. Só não aprendi ainda a gostar de Piaget. Eu gosto mesmo é de Freud. Afinal, ser normal deve ser muito chato. Que bom que a voz do Robert Plant torna as coisas mais simples.
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Hey, Jude, don't make it bad, take a sad song and make it betterRemember, to let her into your heart, then you can start, to make it better. [Hey Jude - The Beatles]
...more near.!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Yes, we can.


Tive uma professora que todos os anos no dia de seu aniversário juntava um multirão em sua casa para preparar enormes panelas de sopa e destribuir nos barracos sujos e mal amanhados de uma faveinha perto de casa. Na época eu era apenas uma criança desajeitada, mas comparecia, pois acreditava que de alguma forma aquilo estaria ajundando, talvez instigando-as para que tirassem as vendas dos olhos, uma tentativa frustrada de desperta-las de seus mundos. Eu gostava daquilo, mesmo sabendo que aquilo na verdade não alterava em nada as coisas, que as pessoas não precisam de esmolas, e sim do que lhes é de direito, precisam de medidas da administração pública, dos políticos de processos arquivados. Nos meus tempos de PJ admirava as pessoas que se dedicavam as outras, pelo menos por alguns minutos. Hoje as pessoas não conseguem carregar o peso da responsabilidade e acabam alterando as coisas... até mesmo os grupos de jovens só se manifestam em prol de coisas prórpias e futilidades. Enfim, essa semana encontrei a tal professora em uma gincana de colégio paricular e fiquei sabendo que o movimento acabou devido a falta de voluntários e falta de tempo. O tempo as vezes parece inimigo. O fato é que foi bom ver aquela juventude toda reunida, gritando em suas caras pintadas, esse fervor todo é contagiante, me lembra força. E se podemos fazer tudo isso por uma simples gincana, imagine o que podemos fazer diante de causas maiores... Não somos tão tolos quanto eles pensam, sim, nós podemos. As vezes fico imaginando o que vou estar pensando depois da universidade, se vão restar apenas memórias, tenho um pouco de medo de ficar como eles, me trancar em um casulo imaginário e esquecer que o mundo existe. Talvez ainda existam pessoas não influenciáveis. Ou talvez eu esteja apenas trazendo o mundo do meu blog para a vida real. Talvez eu esteja mesmo precisando de uma dose forte de realismo.
perhaps, perhaps...
PS: O Roger Waters diria:
"and all the luck,its what I got,Its what I wear,Its what you see,It must be me,Its what I am!"
[Vegetable man - Pink Floyd]

sábado, 15 de agosto de 2009

Dream/

sobre essas coisas que a gente não sabe porque sonha...

Havia um cheiro de bolinhos de avó inundando o ambiente. E uma fresta de sol do finalzinho da tarde, que dava às coisas um tom amarelado, bonito. Tinha também um vaso branco e uma violeta solitária, a preferida da vovó. Havia uma janela aberta, as hawaianas na calçada e um viralatasarnento cochilando. Ele nunca esteve tão bonito antes com sua cara de cachorro. Tinha um céu azul e a voz suave do Dylan. Parecia distante. E além dele havia pessoas na calçada com seus pensamentos esvoaçantes, gastando os passos enquanto gasto as palavras dessas velhas teclas. Sócrates tinha razão, eu pensava... o homem talvez seja mesmo a sua psyché.

perhaps, perhaps...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Ainda sobre férias e coisas repentinas... ¬¬

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- Você e essa maldita pessa e viver! Não vejo necessidade em se dirigir a 180, - resmungava o Marvin equanto, desesperadamente, tentava focar o pôr-so-sol deslumbrante que nos seguia janela a fora. With you were here, sussurrava o Roger Waters. Engraçado como gosto dessa voz me acompanhando nos melhores momentos. A velha caminhonete vermelha deixava para trás o que nem as mais precisas câmeras são capazes de focar, um pouco de nós. E assim iamos seguindo na imensa rodovia, em meio a conversas e muita pressa. Sempre preferi as motos, elas me dão mais liberdade, sem falar na sensação maravilhosa do vento balançando o cabelo e soprando a nuca. Me deixa mais viva. Mas, uma vantagem das quatro rodas é a possibilidade de se conversar, e eu tenho um verdadero tesão por uma boa conversa. Uma boa fogueira, rodeada de bons amigos. Pensei na Florisbela largada naquele quintal. Pensei também no Jude, largado naquela maldita poltrona, assistindo aquela maldta tv e batendo naquelas malditas teclas. Tão caótica a imagem se formando na minha cabeça. Eu dava graças a Deus por aquelas rodovias em minha vida. Eu que não sei ficar parada muito tempo no mesmo lugar, agora mais que nunca, me sinto indo embora de repente. Uma parte de mim, pelo menos, aquela que via a realidade de forma virgem demais. Decidi apenas viver, e me sinto tão aberta quanto meus poros distônicos. As montanhas passavam exibindo suas formas estranhas, enquanto eu também exibia as minhas 'estranhezas' e minha afeição por coisas estranhas, que parece tão infinita quanto as rodovias. Não sei porque isso me remete a conversas frias e monólogas mal terminadas. E não quero tentar entender nada agora. Longas dias, longas noites. Eu não quero me importar com isso. Nesse momento eu só quero 'me' ver, porque tenho a impressão que tenho me deixado oculta nos ultimos tempos. Liberdade é acordar e perceber que não existe mais nada exercendo uma força estranha sobre você. 'Espera que o tempo logo passa', diria tia Lia. Num início de noite ainda claro de inverno, Marvin me segue até a varanda com as mochilas e colchonetes, ainda há alguns pombos lá embaixo, no chão gelado da praça. Quando criança adorávamos descer e alimentá-los, e atirar pedrinhas no lago frio e escuro. Tia Lia dizia para brincarmos com as pessoas, porque os pombos traziam doenças. Se ela pudesse me ver hoje, acho que diria para brincar mais com os pombos e menos com os humanos. Poucas pessoas ainda estavam na rua, durante o inverno a paisagem fria costuma repeli-las. Gosto de ficar até tarde na varanda jogando chess e conversando, as vezes uns amigos do Marvin também vêm, ainda estou de férias da escola. Uma menina gótica me lembra a namorada louca do Jude, que bebe o suco de laranja direto da garrafa e fala um pouco de asneiras. Penso que ele deve sentir falta de conversas maduras ás vezes. Me sinto um pouco egoísta por pensar isso. Também não quero abrir mão desse momento, quem sabe um dia eu mude de ideia, sobre isso e sobre casamento, filhos e as pequenas coisas medíocres. Ozzy Ousborne tem Lulus da Pomerânia, dizia o amigo grandão que não jogava nada. Marvin tá me devendo uma. Já era tarde quando foram embora. Me sinto tão perdida no meio de tudo isso, as vezes tenho a impressão que nem sou desse mundo. Não sei exatamente porque mas pensei em Júlio César, o imperador. Ainda preservo um pouco de uma mania muito antiga de tentar entender a mente das pessoas. Talvez isso não seja mesmo bom. Marvin vive a dizer que a Maria Louca é engenheira e não psicóloga. São duas da manhã, me deito ali mesmo na varanda, me sinto tão entorpecida... há vida em cada um dos meus poros. É estranha essa sensação de felicidade que nos invade as vezes. Marvin começa a falar na peça do Ariano que entrou em cartaz que precisamos assistir. E sobre cinemas lotados pelos adoradores de Harry Potter, aquela porcaria. Penso na matícula das universidades e no pôr-do-sol de ontem a tarde. - Tudo bem com você June? June não respodeu. Ela não sabia.

terça-feira, 14 de julho de 2009

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CRÍTICA DE ARIANO SUASSUNA SOBRE O FORRÓ ATUAL'
Não é a toa que admiro tanto esse cara.
Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta amão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muitojovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró, utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade. - O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhado uma música da Banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de 'forró', e Ariano exclamou: 'Eita que é pior do que eu pensava'. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou. -Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviõesdo forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Porém o culpado desta 'desculhambação' não é culpa exatamente dasbandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shorts começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor doCentro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou em 2003 que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo. Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste, sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular em plena praça pública de uma grande cidade com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vaitomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos. Ariano Suassuna.
Tá dito. E eu assino embaixo!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Cloudbreak


Volta e meia me perguntam sobre a transposição e seus efeitos explosivos. Ainda me pego pensando em como as pessoas vêem certas coisas, afinal estamos tão acostumados a crer fielmente nas mentiras que a televisão inventa. Coisas sobre grandes feitos, progresso, tecnologia, hipermetropia... Incrível muitos ainda nem saberem que estamos diante do maior projeto da engenharia em execução no momento. E que está acontecendo bem aqui ao nosso lado, na Caatinga pobre. Mas a televisão não pode mostrar esse tipo de coisa... Afinal, o que é um monte de galhos secos? Essa semana em uma das expedições científicas da universidade, para pesquisa e coleta de germoplasma vi a obra em um de seus eixos, parte que vai desde Salgueiro-PE até Mauriti-CE. É de uma dimensão inimaginável. Uma coisa bruta, forte, devoradora. E essas nem são as únicas coisas que o povo é privado. A todo momento surgem novidades, suspensão de pesquisa, projetos de lei que aprovem a poligamia... É tudo tão ingênuo e hipócrita. Como um despertar de tolos frente a um mundo admirável... Tudo tão normal. E como Oscar Wilde disse... normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Then I fly back to my rest
I fly back with my nuclear
But everything is different
(Alanis Morissete - Citizen of the planet)


domingo, 28 de junho de 2009

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Sobre inverno, tédio e férias...

Estava em casa assistindo o jornal essa semana quando ouvi alguma coisa sobre o tédio provocado pelas férias. A verdade é que estou tão desacostumada a ficar em casa que mesmo o estágio que me tira de casa por dias não é capaz de diminuir minha asfixia. Deve ser homefobia. Automaticamente me lembrei de um texto que vi em um blog, falava sobre normose, uma palavra inventada por um professor de 86 anos que também achei muito procedente. Ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo querendo se encaixar em um padrão. Bem, pelo menos dessa estou livre, pensei...
Como a falta do que fazer remete as mesmices, encontrei esse texto meu que postei no simplicíssimo há um tempo, quando sobrevivia ao tédio dos escrítórios...

"Da velha cadeira, no velho escritório, batendo nas mesmas teclas do computador que não era DELL.
O tempo está se desintegrando gradualmente.
O horário dos ônibus cada vez mais desregulado. Mesmo assim, ainda há quem transforme os problemas em uma Roma particular e incendeie tudo. Só que memórias são resistentes e permanecem queimando por um longo tempo.
As musicas são ótimas distrações quando se tem que andar em meio ao tédio, mesmo assim, ninguém está livre do sentimento de inutilidade quando se anda na rua, onde as desgraças são expostas em uma enorme vitrine.
Há quem trabalhe o dia inteiro e a noite ainda vá para a faculdade.
Há também quem prefira não fazer nenhum dos dois.
As novidades que os pesquisadores descobrem nem sempre são animadoras.
Os catadores de lixo estão ganhando espaço, há cada vez mais trabalho para eles.
Há outras leis, outras marcas famosas, outras modelos ganhando milhões.
Há muitas coisas boas, como coca-cola e um bom documentário no fim do dia.
Os pais ensinam aos filhos que o mundo já não serve, que é melhor ficar de fora,
mesmo assim, alguns até ainda têm sonhos, só que eles se tornam cada vez mais impossíveis.
Os jornais estão bem mais eficientes, mesmo que as noticias não sejam sempre agradáveis.
Há pessoas simpáticas e agradáveis. E crueis. E elas têm um grande poder sobre nós.
Deveríamos nos manter longe.
Mas a maioria do tempo vivemos para os outros."

In unbroken virgin realities is tired of living. (Plug in baby - Muse)

sábado, 20 de junho de 2009

I like the sea
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Gosto do mar.
Gosto do sweater de mangas na preguiça do domingo. Do restinho de sol no fim da tarde. Gosto dos dias chuvosos, dos dias ensolarados, do céu cinza. Gosto do all star rasgado que todo mundo repara, do cheiro do café derramado, da voz que reclama em seguida. Gosto do cabelo caindo no olho, de sentir os grãos de areia sob o pé, do movimento das ondas se quebrando nos paredões de pedra, do céu azul...
Gosto de inventar palavras, de falar sozinha, do inglês mal pensado, bem escrito. Do Marvin perguntando "What the Fuck?" Gosto das caminhadas no calçadão, do hey you do Pink Floyd, dos gatos de rua que aparecem no quintal para comer presunto e conversar, dos vira-latas sarnentos que me seguem e dá vontade de levar para casa. Gosto do pacote de Doritos de duzentos gramas, das mãos que dividem o pacote. Gosto do barulho da motocicleta velha, da conversa no fundo do bus que é quase sempre o último a passar, do chuvisco que pega de surpresa, do disco arranhado dos Melvins. Gosto camiseta desbotada, do horizonte alaranjado, do telefone que toca na insonia da madrugada, do chocolate esquecido na gaveta, da voz suave do Kurt. Gosto dos amigos encontrados ao acaso depois de muito tempo sem ver, da janela do lado do cobrador, da caneta tinteiro herança da avó. Gosto dos bilhetes da oitava série, das palavras sem rimas, das páginas de cálculos intermináveis. Gosto do anonimato, dos comentários anônimos, da seriedade, do bem que a ciência faz, da botânica. Gosto do calendário rabiscado, da rotina sufocante, da universidade nos fins de semana, dos não feriados, sem nehum pesar. Gosto da coca-cola no calorão, do almoço de mãe, do lençol grosso, da carona no momento mais inesperado. Gosto da música no escuro, da música em todos os momentos, do calor ameno, da serra alta. Gosto do capuccino apostado, do chess perdido, de caminhar sem rumo, do livro que faz perder a hora, esquecer do tempo... Gosto da inspiração no meio da noite, de não precisar de despertador, da carta que chega de surpresa, de fazer visita sem avisar. Gosto do violão nos corredores da faculdade, dos vinis empoeirados, da musica antiga lembrada as pressas. Gosto de tudo isso, like very, very much e talvez do que eu mais goste seja desse gostar torto e sem limite, que supõe meus próprios limites, que nem eu mesma conheço ou talvez nem tenha. Gosto eu mesma de cria-los, de poder parecer grande, de chegar aonde eu quizer... far far away...

"Hey you,
Não me diga que não há nenhuma esperança
Juntos nós resistimos, separados nós caimos."
[Hey you - Pink Floyd]

For fuck's sake.

sábado, 13 de junho de 2009

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Sunbeam

Acordo com as batidas na porta. 6am. Os primeiros raios adentram a janela. Parece agradável. Abro a porta e só então percebo que a música continua rolando. A mesma música de quando fui dormir. "Now it's time for changing and cleansing everything..." diz o Matthew. Como adoro aquela voz.
Marvin me fez acordar mais cedo. Disse que tinha uma surpresa antes das nove. Sábado é dia do club da árvore. Desde os onze anos nos reunimos pontualmente nesse horário. A idéia surgiu no colegial, quando começaram a discutir nas salas de aula a preocupação com o meio ambiente, o futuro. Eram engraçadas as reuniões de quintal, as camisetas sujas de barro, o bolo de laranja, a coca-cola da garrafa de vidro. Daí veio o tempo e mudou tudo. Poly liga para dizer que não vem, talvez James apareça. É estranho ver as pessoas se perdendo em seus afazeres. Às vezes me pergunto em quais momentos eu também faço isso e sinto falta, muita falta de ver as coisas com olhar de criança. Daquelas que brincam de 'sete-cacos', não essas que desperdiçam a infância com Playstation e games de PC. A inclusão digital não é tão boa assim.
Marvin me arrasta para o quintal que tem duas bicicletas, uma roxa com cestinha. A Florisbela me olha estranho. Essa imagem me remete a um tempo muito bom, onde as coisas eram mais 'inocentes'. Onde a infância se resumia a pitombeiras e tombos de bicicleta. Pegamos uma ruela estreita perto da delicatessen. O cheiro é maravilhoso. Apostamos capuccinos, corremos como se fossem as ultimas magrelas do mundo. Paramos em um parque infantil perto da antiga escola, há algumas crianças empinando pipas e escorregando, um garotinho abraçando a mãe com o cabelo balançando no vento. Sentamos na grama bem aparada, do outro lado, em um banco de cimento, desses doados por estabelecimentos comerciais, políticos em época de campanha, vejo as as mãos do jardineiro eficiente. Posso sentir nos seus olhos a sensação de dever cumprido. Ninguém mais percebe. Do lado tem uma Tabebuia spongiosa que plantamos há uns oito anos. Marvin escreve nossos nomes seguido da inscrição 'a long long time ago..." Lembro do final do livro de Vikas Swarup. Me afeta completamente. Talvez por que não seja 'apenas' ficção. Em algum lugar aquelas coisas acontecem de verdade. Lembro do menino Shanka. E me recuso a crer que a vida seja apenas isto. Tiro algumas fotos, da ávore rabiscada, do jardineiro de olhar bonito, da moça do abraço quentinho.
Na volta quando passamos em frente ao banco têm alguns policiais batendo em um rapaz com um cassetete. Parece que ele furtou uma bolsa. Os gritos são ensurdecedores. Minha mãe disse ter visto a mesma cena na semana passada. "E eles nem tinham certeza do que estavam fazendo," ela disse. Fico puta com esse tipo de injustiça. Lembro de um trecho do mesmo livro. "A literatura está tão distante de Dharavi, como a honestidade da polícia." Iniciamos nossa volta para casa calados. Passamos por mais alguns bancos de cimento. Penso nos políticos e em suas promessas vazias. Me dá ansia.
Os fatos costumam ter um efeito forte sobre algumas pessoas. O sol parece seguir-nos. De repente esse resgate todo do Marvin vem a mim como uma mensagem. A mesma mensagem de que as coisas estão muito erradas. Mas disso todo mundo está absurdamente cansado de saber.
Algumas pessoas caminham rapidamente na mesma calçada, indo para o trabalho, outros levam seus filhos para o colégio, posso ver as expressões acusadoras na face de cada imagem que se segue a cada pedalada, mas no fundo ninguém se preocupa em tentar entender onde se encontra o verdadeiro erro. Afinal de contas, o que é um ser humano? Apenas uma formiga.

sábado, 6 de junho de 2009


Sexta-feira 9:54 pm, aula de português instrumental:

O camisolão, o jarro, o passarinho, o oceano, a visita na casa que a gente sentava no sofá.
-E ai, que você acha que Andrade quiz dizer com isso?
-Sei lá. O que você acha de:
'A calça jeans, o grafite, a varanda, a pitombeira, a praia onde a gente sentava com céu alaranjado.'
- A camiseta surrada, o muro do quintal, o cheiro de maresia, os vinis antigos, o alfinete...
-O alfinete?
-É para fazer o papel do jarro.
-Ahh, hum...
-E você, o que escreveria?


PS: Saudações ao Oswald, que aprendeu com o filho que a poesia é descoberta das coisas que nunca se viu.

/Créditos da imagem: books.google.com.br/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

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- Tudo bem June, sério... Que tal uma revanche?
- Claro Marv, - rebati mostrando o sorriso pensativo e... mecânico. O Marvin tinha o dom de quebrar o gelo e eu o invejava. Talvez quizesse um pouco disso ao invés desse silêncio todo que brota de mim em algumas situações. Relutante, pego um peão e movo, como se estivesse me movendo naquele tabuado bicolor.

Aquele era só mais um dia qualquer, quente como hoje, em um bus qualquer, lotado de pessoas que iam e vinham. E eu era só mais uma delas, na mesma janela de sempre, com uma pilha de livros e um pacote de Doritos, olhando os outros estudantes que assim como eu voltavam para casa. Esperando que as nuvens enfim ficassem amenas e mostrassem um pouco as estrelas.
Ele subiu dois pontos depois e se sentou no degrau, mesmo com tantos lugares vazios. E olhou para meus pés. Não pude deixar de notar suas mãos, não porque elas fossem magras e frias, nem pela caixa de madeira que vejo diariamente, mas pelas hawaianas quebradas, que se moviam em um balançar frustrado. E o olhar. As vezes o olhar das pessoas tem um poder esmagante.
Pode ser paranoia minha, mas as vezes eu sonho com isso. E sempre acordo me achando um lixo, o que não é completamente mentira.
Tenho pensado nisso. Nessa nossa incapacidade tão promíscua. Volta e meia me pego tentando imaginar como cada um encara o seu pedaço de inutilidade. Entorpecidos na própria hipocrisia. Penso nas pessoas e suas fardas de calça preta apertada e blusa branca, e nos escritórios tediosos. Vendedores, recebedores de contas, motoristas de bus, todos eles me vem a memória agora. E fins de tarde apressados onde um céu muito laranja passa despercebido. Lembro também da senhora simpática que vendia hot dog na porta do colégio da minha infância. Todos eles parecem pequenas formigas construindo um castelo, uns com caras amarradas, outros com sorisos amarelos. Deve ser essa a diferença. A forma como cada um encara as coisas.
-Professora, é verdade que a gente é o que escolhe ser? Agora tenho certeza disso.
Aulas de botância me deixam paranóicas, me fazem lembrar dos projetos que tenho de entregar e provas de cálculo e física experimental. Me dá vontade de pegar a Florisbela e fugir. Vejo tudo tão mesquinho. Marvin me chama de Maria Louca.
Agora quando lembro do menino me lembro também de um livro que li na semana passada, do gânster que mutilava as crianças para que elas pudessem pedir moedas nos sinais ou nos metrôs. Marvin me arrasta para ver um filme. Relutante eu vou. A gente revê Clube da Luta. Tyler me lembra uma parte das pessoas que não fica à mostra. Como nas fotografias que outrora tiro de pessoas na rua, no bus... Tenho agido assim sem querer. Judas, o obscuro tem despetado meu lado obscuro e amargo.

Dessa vez é Marvin que está quase dormindo. já passa de 01:00 pm. Não sei se ele entendeu bem, mas sei que ouviu tudo. Um vira-lata branco passa embaixo da sacada e tenho vontade de lhe fazer um carinho. Gosto desses cães de rua. Sinto que eles gostam de mim também. Levo Marvin para o quarto, vejo o 'Paris era ontem' de Ariano na sua cabeçeira. Lembro da vontade de conhecer Paris. Pego as peças do chess e arrumo na estante. Ainda penso no filme e na nossa luta individual com a outra parte de nós mesmos. Se eu fosse escolher alguém para lutar acho que não saberia quem escolher. Apago a luz e coloco um disco aleatório. Muse canta Supermassive Black Hole. É uma boa música para se dormir pensando.