Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Cloudbreak


Volta e meia me perguntam sobre a transposição e seus efeitos explosivos. Ainda me pego pensando em como as pessoas vêem certas coisas, afinal estamos tão acostumados a crer fielmente nas mentiras que a televisão inventa. Coisas sobre grandes feitos, progresso, tecnologia, hipermetropia... Incrível muitos ainda nem saberem que estamos diante do maior projeto da engenharia em execução no momento. E que está acontecendo bem aqui ao nosso lado, na Caatinga pobre. Mas a televisão não pode mostrar esse tipo de coisa... Afinal, o que é um monte de galhos secos? Essa semana em uma das expedições científicas da universidade, para pesquisa e coleta de germoplasma vi a obra em um de seus eixos, parte que vai desde Salgueiro-PE até Mauriti-CE. É de uma dimensão inimaginável. Uma coisa bruta, forte, devoradora. E essas nem são as únicas coisas que o povo é privado. A todo momento surgem novidades, suspensão de pesquisa, projetos de lei que aprovem a poligamia... É tudo tão ingênuo e hipócrita. Como um despertar de tolos frente a um mundo admirável... Tudo tão normal. E como Oscar Wilde disse... normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Then I fly back to my rest
I fly back with my nuclear
But everything is different
(Alanis Morissete - Citizen of the planet)


Domingo, 28 de Junho de 2009

.

Sobre inverno, tédio e férias...

Estava em casa assistindo o jornal essa semana quando ouvi alguma coisa sobre o tédio provocado pelas férias. A verdade é que estou tão desacostumada a ficar em casa que mesmo o estágio que me tira de casa por dias não é capaz de diminuir minha asfixia. Deve ser homefobia. Automaticamente me lembrei de um texto que vi em um blog, falava sobre normose, uma palavra inventada por um professor de 86 anos que também achei muito procedente. Ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo querendo se encaixar em um padrão. Bem, pelo menos dessa estou livre, pensei...
Como a falta do que fazer remete as mesmices, encontrei esse texto meu que postei no simplicíssimo há um tempo, quando sobrevivia ao tédio dos escrítórios...

"Da velha cadeira, no velho escritório, batendo nas mesmas teclas do computador que não era DELL.
O tempo está se desintegrando gradualmente.
O horário dos ônibus cada vez mais desregulado. Mesmo assim, ainda há quem transforme os problemas em uma Roma particular e incendeie tudo. Só que memórias são resistentes e permanecem queimando por um longo tempo.
As musicas são ótimas distrações quando se tem que andar em meio ao tédio, mesmo assim, ninguém está livre do sentimento de inutilidade quando se anda na rua, onde as desgraças são expostas em uma enorme vitrine.
Há quem trabalhe o dia inteiro e a noite ainda vá para a faculdade.
Há também quem prefira não fazer nenhum dos dois.
As novidades que os pesquisadores descobrem nem sempre são animadoras.
Os catadores de lixo estão ganhando espaço, há cada vez mais trabalho para eles.
Há outras leis, outras marcas famosas, outras modelos ganhando milhões.
Há muitas coisas boas, como coca-cola e um bom documentário no fim do dia.
Os pais ensinam aos filhos que o mundo já não serve, que é melhor ficar de fora,
mesmo assim, alguns até ainda têm sonhos, só que eles se tornam cada vez mais impossíveis.
Os jornais estão bem mais eficientes, mesmo que as noticias não sejam sempre agradáveis.
Há pessoas simpáticas e agradáveis. E crueis. E elas têm um grande poder sobre nós.
Deveríamos nos manter longe.
Mas a maioria do tempo vivemos para os outros."

In unbroken virgin realities is tired of living. (Plug in baby - Muse)

Sábado, 20 de Junho de 2009

I like the sea
.

Gosto do mar.
Gosto do sweater de mangas na preguiça do domingo. Do restinho de sol no fim da tarde. Gosto dos dias chuvosos, dos dias ensolarados, do céu cinza. Gosto do all star rasgado que todo mundo repara, do cheiro do café derramado, da voz que reclama em seguida. Gosto do cabelo caindo no olho, de sentir os grãos de areia sob o pé, do movimento das ondas se quebrando nos paredões de pedra, do céu azul...
Gosto de inventar palavras, de falar sozinha, do inglês mal pensado, bem escrito. Do Marvin perguntando "What the Fuck?" Gosto das caminhadas no calçadão, do hey you do Pink Floyd, dos gatos de rua que aparecem no quintal para comer presunto e conversar, dos vira-latas sarnentos que me seguem e dá vontade de levar para casa. Gosto do pacote de Doritos de duzentos gramas, das mãos que dividem o pacote. Gosto do barulho da motocicleta velha, da conversa no fundo do bus que é quase sempre o último a passar, do chuvisco que pega de surpresa, do disco arranhado dos Melvins. Gosto camiseta desbotada, do horizonte alaranjado, do telefone que toca na insonia da madrugada, do chocolate esquecido na gaveta, da voz suave do Kurt. Gosto dos amigos encontrados ao acaso depois de muito tempo sem ver, da janela do lado do cobrador, da caneta tinteiro herança da avó. Gosto dos bilhetes da oitava série, das palavras sem rimas, das páginas de cálculos intermináveis. Gosto do anonimato, dos comentários anônimos, da seriedade, do bem que a ciência faz, da botânica. Gosto do calendário rabiscado, da rotina sufocante, da universidade nos fins de semana, dos não feriados, sem nehum pesar. Gosto da coca-cola no calorão, do almoço de mãe, do lençol grosso, da carona no momento mais inesperado. Gosto da música no escuro, da música em todos os momentos, do calor ameno, da serra alta. Gosto do capuccino apostado, do chess perdido, de caminhar sem rumo, do livro que faz perder a hora, esquecer do tempo... Gosto da inspiração no meio da noite, de não precisar de despertador, da carta que chega de surpresa, de fazer visita sem avisar. Gosto do violão nos corredores da faculdade, dos vinis empoeirados, da musica antiga lembrada as pressas. Gosto de tudo isso, like very, very much e talvez do que eu mais goste seja desse gostar torto e sem limite, que supõe meus próprios limites, que nem eu mesma conheço ou talvez nem tenha. Gosto eu mesma de cria-los, de poder parecer grande, de chegar aonde eu quizer... far far away...

"Hey you,
Não me diga que não há nenhuma esperança
Juntos nós resistimos, separados nós caimos."
[Hey you - Pink Floyd]

For fuck's sake.

Sábado, 13 de Junho de 2009

.
Sunbeam

Acordo com as batidas na porta. 6am. Os primeiros raios adentram a janela. Parece agradável. Abro a porta e só então percebo que a música continua rolando. A mesma música de quando fui dormir. "Now it's time for changing and cleansing everything..." diz o Matthew. Como adoro aquela voz.
Marvin me fez acordar mais cedo. Disse que tinha uma surpresa antes das nove. Sábado é dia do club da árvore. Desde os onze anos nos reunimos pontualmente nesse horário. A idéia surgiu no colegial, quando começaram a discutir nas salas de aula a preocupação com o meio ambiente, o futuro. Eram engraçadas as reuniões de quintal, as camisetas sujas de barro, o bolo de laranja, a coca-cola da garrafa de vidro. Daí veio o tempo e mudou tudo. Poly liga para dizer que não vem, talvez James apareça. É estranho ver as pessoas se perdendo em seus afazeres. Às vezes me pergunto em quais momentos eu também faço isso e sinto falta, muita falta de ver as coisas com olhar de criança. Daquelas que brincam de 'sete-cacos', não essas que desperdiçam a infância com Playstation e games de PC. A inclusão digital não é tão boa assim.
Marvin me arrasta para o quintal que tem duas bicicletas, uma roxa com cestinha. A Florisbela me olha estranho. Essa imagem me remete a um tempo muito bom, onde as coisas eram mais 'inocentes'. Onde a infância se resumia a pitombeiras e tombos de bicicleta. Pegamos uma ruela estreita perto da delicatessen. O cheiro é maravilhoso. Apostamos capuccinos, corremos como se fossem as ultimas magrelas do mundo. Paramos em um parque infantil perto da antiga escola, há algumas crianças empinando pipas e escorregando, um garotinho abraçando a mãe com o cabelo balançando no vento. Sentamos na grama bem aparada, do outro lado, em um banco de cimento, desses doados por estabelecimentos comerciais, políticos em época de campanha, vejo as as mãos do jardineiro eficiente. Posso sentir nos seus olhos a sensação de dever cumprido. Ninguém mais percebe. Do lado tem uma Tabebuia spongiosa que plantamos há uns oito anos. Marvin escreve nossos nomes seguido da inscrição 'a long long time ago..." Lembro do final do livro de Vikas Swarup. Me afeta completamente. Talvez por que não seja 'apenas' ficção. Em algum lugar aquelas coisas acontecem de verdade. Lembro do menino Shanka. E me recuso a crer que a vida seja apenas isto. Tiro algumas fotos, da ávore rabiscada, do jardineiro de olhar bonito, da moça do abraço quentinho.
Na volta quando passamos em frente ao banco têm alguns policiais batendo em um rapaz com um cassetete. Parece que ele furtou uma bolsa. Os gritos são ensurdecedores. Minha mãe disse ter visto a mesma cena na semana passada. "E eles nem tinham certeza do que estavam fazendo," ela disse. Fico puta com esse tipo de injustiça. Lembro de um trecho do mesmo livro. "A literatura está tão distante de Dharavi, como a honestidade da polícia." Iniciamos nossa volta para casa calados. Passamos por mais alguns bancos de cimento. Penso nos políticos e em suas promessas vazias. Me dá ansia.
Os fatos costumam ter um efeito forte sobre algumas pessoas. O sol parece seguir-nos. De repente esse resgate todo do Marvin vem a mim como uma mensagem. A mesma mensagem de que as coisas estão muito erradas. Mas disso todo mundo está absurdamente cansado de saber.
Algumas pessoas caminham rapidamente na mesma calçada, indo para o trabalho, outros levam seus filhos para o colégio, posso ver as expressões acusadoras na face de cada imagem que se segue a cada pedalada, mas no fundo ninguém se preocupa em tentar entender onde se encontra o verdadeiro erro. Afinal de contas, o que é um ser humano? Apenas uma formiga.

Sábado, 6 de Junho de 2009


Sexta-feira 9:54 pm, aula de português instrumental:

O camisolão, o jarro, o passarinho, o oceano, a visita na casa que a gente sentava no sofá.
-E ai, que você acha que Andrade quiz dizer com isso?
-Sei lá. O que você acha de:
'A calça jeans, o grafite, a varanda, a pitombeira, a praia onde a gente sentava com céu alaranjado.'
- A camiseta surrada, o muro do quintal, o cheiro de maresia, os vinis antigos, o alfinete...
-O alfinete?
-É para fazer o papel do jarro.
-Ahh, hum...
-E você, o que escreveria?


PS: Saudações ao Oswald, que aprendeu com o filho que a poesia é descoberta das coisas que nunca se viu.

/Créditos da imagem: books.google.com.br/

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

.

- Tudo bem June, sério... Que tal uma revanche?
- Claro Marv, - rebati mostrando o sorriso pensativo e... mecânico. O Marvin tinha o dom de quebrar o gelo e eu o invejava. Talvez quizesse um pouco disso ao invés desse silêncio todo que brota de mim em algumas situações. Relutante, pego um peão e movo, como se estivesse me movendo naquele tabuado bicolor.

Aquele era só mais um dia qualquer, quente como hoje, em um bus qualquer, lotado de pessoas que iam e vinham. E eu era só mais uma delas, na mesma janela de sempre, com uma pilha de livros e um pacote de Doritos, olhando os outros estudantes que assim como eu voltavam para casa. Esperando que as nuvens enfim ficassem amenas e mostrassem um pouco as estrelas.
Ele subiu dois pontos depois e se sentou no degrau, mesmo com tantos lugares vazios. E olhou para meus pés. Não pude deixar de notar suas mãos, não porque elas fossem magras e frias, nem pela caixa de madeira que vejo diariamente, mas pelas hawaianas quebradas, que se moviam em um balançar frustrado. E o olhar. As vezes o olhar das pessoas tem um poder esmagante.
Pode ser paranoia minha, mas as vezes eu sonho com isso. E sempre acordo me achando um lixo, o que não é completamente mentira.
Tenho pensado nisso. Nessa nossa incapacidade tão promíscua. Volta e meia me pego tentando imaginar como cada um encara o seu pedaço de inutilidade. Entorpecidos na própria hipocrisia. Penso nas pessoas e suas fardas de calça preta apertada e blusa branca, e nos escritórios tediosos. Vendedores, recebedores de contas, motoristas de bus, todos eles me vem a memória agora. E fins de tarde apressados onde um céu muito laranja passa despercebido. Lembro também da senhora simpática que vendia hot dog na porta do colégio da minha infância. Todos eles parecem pequenas formigas construindo um castelo, uns com caras amarradas, outros com sorisos amarelos. Deve ser essa a diferença. A forma como cada um encara as coisas.
-Professora, é verdade que a gente é o que escolhe ser? Agora tenho certeza disso.
Aulas de botância me deixam paranóicas, me fazem lembrar dos projetos que tenho de entregar e provas de cálculo e física experimental. Me dá vontade de pegar a Florisbela e fugir. Vejo tudo tão mesquinho. Marvin me chama de Maria Louca.
Agora quando lembro do menino me lembro também de um livro que li na semana passada, do gânster que mutilava as crianças para que elas pudessem pedir moedas nos sinais ou nos metrôs. Marvin me arrasta para ver um filme. Relutante eu vou. A gente revê Clube da Luta. Tyler me lembra uma parte das pessoas que não fica à mostra. Como nas fotografias que outrora tiro de pessoas na rua, no bus... Tenho agido assim sem querer. Judas, o obscuro tem despetado meu lado obscuro e amargo.

Dessa vez é Marvin que está quase dormindo. já passa de 01:00 pm. Não sei se ele entendeu bem, mas sei que ouviu tudo. Um vira-lata branco passa embaixo da sacada e tenho vontade de lhe fazer um carinho. Gosto desses cães de rua. Sinto que eles gostam de mim também. Levo Marvin para o quarto, vejo o 'Paris era ontem' de Ariano na sua cabeçeira. Lembro da vontade de conhecer Paris. Pego as peças do chess e arrumo na estante. Ainda penso no filme e na nossa luta individual com a outra parte de nós mesmos. Se eu fosse escolher alguém para lutar acho que não saberia quem escolher. Apago a luz e coloco um disco aleatório. Muse canta Supermassive Black Hole. É uma boa música para se dormir pensando.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Tempos modernos... Oh Ford!

.


"Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível." [ Albert Einstein ]

Créditos da imagem: Jotapê (http://blogs.abril.com.br/jotape/)

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

.

Piloto na av. Getúlio Vargas. Florisbela se comporta bem, mesmo com a chuva de ontem a noite. O dia está quente e úmido, o sol forte em contato com a minha pele branca provoca um efeito estranho. Penso na harmonia... estranho o transito turvo e barulhendo não perturbar meu humor.
Entro na tradicional escola de lingua inglesa, dou minhas aulas como de costume. Interessante como me sinto bem ali, um pouco útil talvez. Na volta quando passo em frente ao prédio da prefeitura têm alguns estudantes fazendo protesto. Paro e fico observando de longe, daria uma bela foto se eu não tivesse esquecido a câmera em casa. Consigo identificar uma colega da universidade. Bina, a revolucionária, com um lado da face coberto por uma tinta branca, destribuindo panfletos e sorrisos no meio de toda aquela multidão. Penso em mim em outros momentos, destribuindo os mesmo panfletos, eu que já não tenho tempo para essas coisas, ou talvez não ache mais que elas funcionem. Me sinto vazia olhando todas aquelas pessoas se dispondo a consertar as coisas, mesmo que do seu jeito torto. Eu que me dispusera a consertar o mundo, a molda-lo, e no entanto estava ali, sentindo o sol como um abraço... Mais tarde eu lembraria daquilo. E da moça da face branca.
Marvin comprou um piano, e me levou para escolher. Ele acha que eu tenho mais 'noção' dessas coisas. Eu que só tive um violão Giannini 1990 e agora minha Les Paul. A vendedora mostrou todos os modelos. Uns com botões, tipo videogame e eu nem sabia que até os pianos já tinham botões. Efeitos da tecnologia, pensei.
- Ah, Maria louca, não entendo você, ora cientista, pesquisando naqueles laboratórios da universidade, discipula de Albert Einstein, do evolucionismo de Darwin, ora reclamando da modernidade, como uma caretona.
- Só acho que pianos não combinam com botões. Qual é Marvin, daqui a pouco vão querer por botões em nós. Estamos sendo adestrados...
A noite quando chego da universidade visto um short que um dia já foi calça e uma camiseta velha do Pink floyd que marvin me deu há alguns anos junto com o ultimo livro do Dan Brown. Caramba, me dei conta de quanto eu curto os livros daquele cara. Marvin também gosta. Ele diz que eu sou a única pessoa do mundo que consegue admirar Shakespeare e Dan Brown ao mesmo tempo. Sento na varanda e respondo alguns e-mails. Enfim consegui o livro que procurava há meses. Judas, o obscuro, de Thomas Henri, o preferido do pai da Ana. Um amigo me mandou o pdf e por enquanto é só isso que posso ter. Quem sabe um dia não cruzo com um exemplar em um sebo qulquer e compro. Ainda não começei a ler mas acho que amarei. Não tenho muito saco para internet por isso logo largo de mão. Continua quente. Como um vapor invadindo a cidade. Queria brisa, mar, areia. Ou pelo menos dormir de janela aberta. Esse mundo mutável e instável me assusta. Sinto vontade de ver as coisas como antes, claro que estou falando da harmonia das coisas. A chuva, o calor, no seu calendário... A floresta em seu lugar. Mas além de sermos estúpidos ocupamos muito espaço. Sinto saudades de Veríssimo, de Pessoa, dos clássicos. Acho que estou ficando paranóica.
Marvin chega mais tarde e se junta a mim. Trás uma coca-cola. Ainda me sinto vazia.
-Vai uma partida de chess ai?
-Claro Marvin.
No céu quase não ha estrelas. Na rua as ultimas pessoas caminham com seus passoas errantes. Um homem se mexe na calçada abaixo na minha janela, o cheiro de embriaguês chega até nós. Lembro da opinião do professor de fisiologia mais cedo sobre as pessoas que apenas sobrecarregam o sistema. Sinto uma coisa estranha. Deve ser raiva. Ele devia ser proibido de dar aulas. Acordo com a voz alterada do Marvin.
- Check mat June. Você está ai?
- June. As vezes me esqueço que esse é meu nome.
- Pois é Maria louca, em qual dos seus mundos você estava agora?
- Tava pensando no menino das Hawaianas quebradas.
- E um dia você vai me contar que raio de menino é esse?
- Um dia Marv...

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Crazy Mary - Favorite tree


- Hey Crazy Mary, desce daí e vamos chupar 'pitomba' - gritava o Marvin sempre que eu subia na lage para 'fugir' do mundo. Lá em cima eramos só eu, os pássaros que apareciam uma vez ou outra, e o céu, ora azul ora cinza, parecendo sempre combinar com meu estado de espírito. - Mas Crazy Mary, pensar tanto não pode fazer bem - ele dizia me deixando puta. Ele passou a me chamar assim por causa da música, e eu até que gostava. O que eu não gostava era o fato de sempre conseguir me tirar dali com suas artimanhas particulares e sujas que nunca perdia chance de usar.
- E se eu por ventura eu ... consertasse a Florisbela?
- Sério?
- Se por acaso você fizesse 'milkshake' de chocolate com menta na volta e me emprestasse esse livro ai...
- Justo o que eu estou lendo Marvin, isso é golpe baixo...
- Você poderia reler 'o morro dos ventos uivantes' Srt. Swan.
- Fechado, seu babaca. - Eu dizia quase pulando lá de cima.
O pé de pitomba enfeita o quintal desde quando eu tinha 6 anos, lia Monteiro Lobato e sonhava com um pé de 'jabuticaba'. Um dia eu cheguei da escola e papai estava cavando todo sujo de barro. Então a pitombeira se tornou minha 'árvore' favorita.
- Marvin, porque a gente sempre quer as jabuticabas, mesmo tendo pitombas?
- Talvez elas não sejam tão boas, - ele dizia me abraçando, porque essa não era o tipo de pergunta que se responde com palavras. Nossos nomes estão gravados lá desdes os 12 anos quando ele tinha aquelas crises e ecordava gritando no meio da noite. Deus sabe o quanto salvou a minha vida quando ele veio aqui para casa. Uma coisa que eu nunca vou entender é essa 'solidão' que as vezes paira sobre a gente mesmo com tanta gente redor. Esses dias são justamente os que eu subo na lage ou na pitombeira. Ai vem o Marvin e me faz descer. E mesmo quando isso não acontece ele fica lá em baixo sentado, jogando pedras e cantanto 'Jimi Hendrix' dois tons acima.
Hoje eu quase não tenho tempo para isso. O 'inglês' e as universidades me consomem dias e noites. E eu amo tudo isso, mas as vezes sinto falta da infância e da parte de 'mim' que ficou para trás. Outras vezes, quando o Marvin em um de seus ataques de gracinhas troca meus cds de listening e pronunciation por Bon Jovi 1972 eu penso que essa infância ainda não acabou.
Agora mesmo, o Marvin foi fazer um trabalho e os velhos estão dormindo, assim como a maioria das pessoas que vão cedo para o trabalho. E uma grande massa se diverte nas longas noites das capitais. Se eu morasse perto do 'mar' provavelmente estaria caminhando descalça na areia, olhando as ondas se formando e desfazendo nos imensos paredões de pedra. São 22:57 do domingo, estou aqui em cima da lage olhando as estrelas. Aquela bem grande que dizem ser um planeta. Os chuviscos de antes deixaram o bilho 'ofusco'. Mas isso não diminuiu sua beleza. Sou fascinada nessas coisas,quero ter um 'telescópio' bem grande na minha janela. Custa caro. Meu pai acha uma loucura. Marvin diz que meus olhos por si só já são telescópios, mesmo quando ando envolta em meus pensamentos e passe sem perceber as pessoas e coisas. Uma brisa fria sopra meu cabelo. A lua lá em cima brilha escondendo suas 'crateras', assim como nós tentamos esconder as nossas. Fico observando as pessoas lá embaixo em seus passos lentos. Penso no menino das hawaianas quebradas. Ainda me deixa triste.
Mas mesmo que eu não saiba se estou no caminho certo, amanhã é segunda e por uma semana inteira não terei tempo para nostaugias. Antes de descer para o quarto cai uma chuva, primeiro 'fininha', depois enfurecida. Durmo pensando na chuva, caindo sobre nossas vidas.

Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
They slither while they pass, they slip away across the universe.
Pools of sorrow, waves of joy,
Are drifting through my open mind,
Possessing and caressing me.
[Across the universe - Pear Jam]

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Crazy Mary


.

Mais um feriado. As universidades param. Ela assiste o jornal. E como sempre não entende toda aquela guerra. E todos aqueles colarinhos brancos em crise enquanto as pessoas se matam por comida. Lembrou do Andarilho anonimo. "E violência, sexo, video-games e coisas japonesas estranhas e incompreensíveis." E feições inocentes.
Ela toca 'guitar' e queima um incenso de jasmim, mas isso não afasta seus pensamentos. E mais tarde quando ela sai para instituição onde faz trabalho social, lá fora os vira-latas magrelos farejam o lixo. E mais adiante a criança magrela também fareja. E a maioria das pessoas não está na rua, porque é feriado e provavelmente têm algo melhor para fazer. Ela veste uma camiseta pintada com o 'Einstein'. E fala sozinha enquanto caminha. Mais tarde ela passa por uma praça e vê crianças amarelas e amedrontadas brincando enquanto os ultimos raios se desfazem. E uma dondoca passeando com seu filho, se desvia do caminho para evitar a cena. Porque eles fazem parte de diferentes 'impérios'. Estranho as pessoas sempre donas da verdade, rotulando tudo. Como ter orgulho disso se somos mesmo uma farça? Uma geração que dança conforme a música deles. Esperando sempre ouvir as mesmas coisas. Pobres marionetes desse sistema podre. 'So stupids'.

"Sonhei que estava voando acima das árvores além das colinas
Avistei a casa da Maria louca
Paredes insuportáveis cobertas de jornais
E Maria superando tudo...Tudo..."
(Crazy Mary - Pearl Jam)

Domingo, 19 de Abril de 2009

A girl whom him was loving english [3]


'A moça que queria morar de frente para o mar.'

As semanas seguintes continuaram chuvosas. Chuvas de abril. Mais uma variação climática. Marvin me acha 'nerd' por associar esses fatos. Ele prefere acreditar que por trás de 'tudo isso' há um pouco de exagero para despertar-nos, que as coisas vão ficar 'bem' depois. Como se proteger em um casulo imaginário. Fingindo que as coisas não existem.
Marvin compartilha comigo o gosto pela chuva. De ficar olhando na minha varanda o 'formigueiro' de guarda-chuvas coloridos que passaram lá em baixo com suas sacolas de papel cheirando a pão fresco.
De sair para fotografar depois da 'calmaria'. Ele todo posudo com a Nikon D70 de estimação e eu sonhando com a Canon 20D que terei um dia. Das corridas apostadas na volta para ver quem se molha menos, que sempre termina no café da esquina com um 'capuccino big' coberto de chantily e várias partidas de 'chess'. Ele acha minhas fotografias 'abstratas'. A chuva. O mar. Os rostos e suas feições. Eu perguntadora.
-Marvin, como faço para focar a 'alma'?
Ele sem saber como responder.
Tenho sentido as coisas retrocedendo. As conversas boas do ônibus na volta da faculdade. O menino das 'hawaianas' quebradas cujo as vezes ainda vejo o olhar. Me fitando. Me esmagando. E a fatia de melão.
Tive um sonho estranho.
Uma chaminé fumaçando em meio ao siêncio. Dentro de uma velha casa, o barulho 'estalante' de lenha queimando. Um cheiro de bolinho de avó que exalava forte enquanto o óleo fervia com o calor das palavras da velha senhora de gorro no pescoço.
-Vó, de que a senhora tem mais saudade? questionava uma garotinha 'inquisidora'.
-Das flores amarelas que eu avistava da varanda quando chovia. E da luz dos 'candeeiros'. Do tempo. Que passa correndo.
-Se for verdade que existe mar quero ter uma varanda bem de frente.
Além do menino, agora esse sonho. Que também não sai da cabeça. Que me transportou á história de 'Merren', do velho que queria ver o mar.
Para variar acordei pensando que deve ser normal sentir falta do que nunca fomos.
Plantei uma árvore nova no quintal. Uma Bignoniaceae. Tabebuia avellanedae.
Tabebuias are my favorites trees.
No escola de 'english' o garoto das lentes embaçadas continua me chamando a atenção. Isolado na ultima cadeira da fila.
Marvin as vezes se isola em seu quarto arrumado para ler Vinicius de Moraes. Eu não gosto muito do Vinicius.
Mas as vezes também me pego nesses momentos 'nostáugicos'. Lendo jornais na ultima carteira, vendo os grandes homens de caráter pequeno...]

"Há um cartaz na parede
Mas ela quer ter certeza
Porque você sabe que às vezes as palavras
têm duplo sentido
Em uma árvore a beira do riacho
Há um rouxinol que canta
Às vezes todos os nossos pensamentos estão errados."
[Stairway to heaven - Led Zeppelin]

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

A girl whom him was loving english [2]


- Como estás 'decrépita', - comentou o Marvin logo cedo- parece que nem acordou ainda.
A florisbela as vezes custa a 'pegar'. Isso sempre me emputeceu, continua emputecendo e vai emputecer sempre. Principalmente quando chove.
Acordei com o barulho da chuva e o cheiro forte de café. Lenta, desatenta e com 'vontade' de escrever. Meus dedos chegavam a 'bruxulear'.
Duarante a aula de cálculo II minha atenção se prendia no movimento da chuva lá fora e as gotas que perdiam suas formas na janela de vidro ao meu lado. O céu estava azul-acinzentado-fosco. 'Bonito'. Enquanto o professor explicava teoremas de confronto e anulamento. E minha atenção insistia em se voltar para a chuva. Até encontrar um livro de literatura enfanto juvenil, desses de oitenta páginas que a gente lê em uma hora. -Me empresta, pedi a moça de óculos de armação vermelha da carteira da frente. E asism foi-se a manhã. E a cara espantada e o olhar inquisidor da moça quando devolvi o livro. - Já?-
'Ana e Pedro cartas'. Havia um tempão que não lia esse tipo de livro. O último foi 'manhas comuns' quando tinha uns quinze/desesseis anos. Fez lembrar de mim em uma adolescencia remota. Bem mais Pedro que Ana. Acho que tenho envelhecido depressa. Marvin me chama de paranóica por isso, mas eu sinto mesmo que envelheço alguns anos a mais a cada semestre. A responsabilidade bate feito uma tempestade, dessas que não tem por aqui, tipo as de Bahamas. Talvez por isso eu tenha tanta pressa. Tanta coisa ainda para viver. Tantos lugares. Desde as cidadezinhas históricas de Minas a 'gigante' London, tão perto e distantes dos sonhos. Talvez não haja mesmo meio das coisas seguirem junto com o homem.
Adoro 'cartas'. Postais, telegramas, cartões de natal, bilhetes, postit, dicionários de inglês e marcadores de página. Deve ser legal por demais trocar cartas com amigos. E fazer amigos por carta. Depois que inventaram a correspondencia eletrônica e o orkut tudo ficou tão mecânico. Sinto saudades do moço de 'amarelo' que trazia a correspondência na bicicleta, virando a esquina, trazendo consigo uma espectativa boa por aquelas palavras que viajavam milhares de quilômetros, de ver as letrinhas no papel e imaginar o movimento das mãos rabiscando cada letra. Hoje só chegam contas, talão de cheques, fatura de cartão.
Minha mãe ontem veio com uma conversa estranha sobre mudanças. Não entendi muito bem, a velha não tem muito talento com as palavras, mas me fez lembrar aquela vez que veio me dar a noticia do colégio enterno, quando eu tinha oito anos e não sabia nada da vida. E talvez ainda não saiba. Com o Pedro também foi assim. Dei uma carona a um dos meus alunos da nova turma de inglês. Um garotinho loiro de bochechas rosas que me perguntou se eu tinha mãe. O olhar triste e bom dele me deixou meio 'boba'.
Deve ser efeito do livro. Por falar nisso comecei a ler Kim Eduards, 'O guardião de memórias'. Até que é interessante. Estou a procura de 'Judas, o obscuro'. O preferido do pai da Ana. A ana que divide comigo a mesma opinião sobre casamentos e as mesmas preocupações sobre os tempos de 'aids', mudanças climáticas, feriados múltiplos, presidente da república...

"Mude.
Tudo o que você é,
E tudo o que você foi.
Você tem que ser melhor,
Você tem que mudar o mundo.
E usar essa chance para ser ouvido.
Sua hora é agora."
[Butterflies and hurricanes - Muse]

Terça-feira, 7 de Abril de 2009

'a girl whom he was loving english'


A motocicleta amarela faz um 'barulhão' ao adentrar a rua estreita de paralelepípedo. Joga esse treco velho fora diz o Marvin sempre que chego fazendo-me ruborizar de raiva. Algumas pessoas têm aimais de estimação. Outras colecionam objetos de arte. Eu adotei a Kasinski Cruise 125 que ganhei do meu pai quando fiz quinze anos, numa tentativa frustrada de substituir o cachorro que nuca pude ter devido a alergia da minha irmã. Dentre todas as coisas das quais ele tira 'sarro' a motocicleta e os vinis anos 70 são os que mais me enfurecem, afinal eles não são meros objetos como todo mundo pensa, mas parte da minha história - não que isso seja grande coisa- mas sempre fico muito 'puta' quando isso acontece. E o Marvin adora me ver assim.
Marvin é meu 'primo-irmão'. Daqueles que ora você tem vontade de matar, ora acha que pode ainda vir a precisar dele. É uma quase cópia do 'Ed Kenedy de Marcus Suzak', com muitas diferenças claro! Quando ele tinha nove anos seus pais - consequentemente meus tios - morreram em um acidente de carro. Desde então ele mora conosco aqui no prédio azul de janelas desbotadas, mais precisamente em um quarto excessivamente iluminado bem mais organizado que o meu. Com 19 anos ele estuda publicidade e é fotografo nas horas vagas. Odeio as centenas de fotos que ele costuma tirar escondido. São coisas um tanto perigosas se tratando dele. Mas um primo 'desses' é bem util para fazer 'sandwich', ir ao cinema quando não se tem outras opções e cuidar do jardim - até temos uma sociedade secreta de plantadores de árvores, todos os sábados as nove da manhã.
Bem... voltando ao assunto da moto, a florisbela é tudo o que há. Além de me ouvir quando o Marvin está ocupado ainda me livra de pagar a 'absurdez' de preço do transporte coletivo que essa semana aumentou novamente. Marvin é metido com movimento estudantil, eu até que entrei nessa logo que começei o curso de letras english, mas não é para mim não. Se tem uma coisa que eu sou contra é essa coisa de fica falando falando e parar nisso. Palavras sem ação são tão inúteis.
Não que eu esteja criticando ninguém. Como diz pink floyd 'no sarcasm' e cada um faz o que pode, mas eu tenho outras prioridades agora. Prioridades essas que eu talvez nem entenda direito. Marvin vive criticando isso, isso e várias outras coisas, como por exemplo o meu fanatismo retrocesso pelo Eduard Cullen. Ele diz que quero abraçar o mundo com as pernas. E acha que eu deveria ter nascido britânica. Mas e daí se eu amo inglês e uso all star? Isso não me faz inconsciente do meu papel aqui. Porque será que as pessoas vivem querendo enquadrar todo mundo em um modelo pré-fabricado que não me atrai nem um pouco.
Sou apaixonada por inglês e literatura. Dou aulas para turmas de pre-adolescentes em uma escola de linguas do outro lado da cidade. Eu e a florisbela. Bem mais gratificante que traduzir aquelas longas reuniões de 'caras-amarradas-de-colarinho-branco', isso me dá mais liberdade de ser quem eu sou. A garotada adora as músicas e eu posso usar meus jeans e tênis - detesto ser obrigada a trabalhar de 'farda de dondoca'. Tudo o que eu menos preciso agora é ser alguém com complexo.
Na janela do meu quarto tem uma 'varandinha' com vista para a rua. De lá no final da tarde eu aspiro o calor escaldante antes de ir para a faculdade. Enquanto o 'Jimi' canta (grita?) 'if 6 was 9' as pessoas voltam de seus trabalhos, colarinhos e saltos se misturando, falando de orkut, big brother, reuniões do g20, novela das oito, cigarros... Interessante essa nossa miopia particular e essa capacidade de ignorar as coisas. Quem sabe essa 'parada' de verdade de cada um não seja mais uma mentira que eles enventaram para nos contar? Pobres 'palhaços' enganados.
Minha cabeça as vezes 'gira'. E eu só sei de uma coisa. Essa normalidade toda é muito entediante...

"Conservadores de colarinho branco passam rapidamente pela rua,
Apontando seu dedo de plástico para mim.
Eles esperam que gente como eu caia e morra logo,
Mas eu vou balançar minha bandeira monstruosa, alto, alto.
Balançar, balançar...
Caiam, montanhas, apenas não caiam em mim
Vá em frente, Senhor Homem de Negócios, você não pode se vestir como eu.
Tudo bem, porque eu tenho o meu próprio mundo para observar,
E eu não vou copiar você..."
(If 6 was 9 - Jimi Hendrix)

Domingo, 8 de Março de 2009

Sunrise... O amanhecer de uma cidade sempre tão chuvosa e úmida não era diferente ao longo dos dias, mas eu via sempre com deslumbre através da vidraça. A fria Forks era realmente - e incrivelmente- bela como nos livros. Era tudo tão verde e gélido, motivo pelo qual sempre tinha de vestir meu grosso sobretudo marron. Engraçado, já havia pouco mais de dois meses que estava ali, mas não havia um dia sequer que que não parasse algum tempo contemplando através da janela. Como todos os outros dias, meu avô me esperava na mesa de pinho escuro ao lado de uma fumegante caneca e seu vicioso jornal.
- Bom dia flor - Ele sorria por trás de suas lentes, me analisando como um perito, com o olhar docil que eu sempre retribuia. As vezes eu tinha a impressão que não se conseguia esconder nada dele, que ele podia saber todos os meus pensamentos, mesmo aqueles que eu guardava só para mim. Era estranho porque ao invés de me intimidar isso me deixava segura, ao contrário dela, que parecia conhecer meus pontos fracos, e isso me deixava tão esposta e vulnerável.
-Olhando pela janela sinto que talvez ainda pudesse passar muito tempo aqui.- Eu gostava de dizer aquilo, ele também gostava quando eu começava a falar, tenho certeza que sabia tudo o que eu diria em seguida, mas escutava o meu silêncio, com aquele sorriso de covinhas que eu herdei, enquanto meu olhar perdido procurava as palavras.
-Quem sabe o resto da vida... - ele retribuia, sempre me testando... isso fazia meu sangue gelar. Não consigo imaginar a vida inteira em dimensões tão pequenas... pensar nisso me sufoca, porque não é certo se prender a meros lugares, ou pessoas, por melhores que eles sejam, mesmo a vida sendo um resto.
-Vô.., você já parou para pensar que esse "resto" pode simplesmente ser um intervalo entre um gole e outro do seu chá? E se for, até lá será que terei feito o suficiente?
Minhas respostas sempre pareciam agrada-lo, eu poderia esperar horas pelo que ele diria em seguida, no fundo eu me sentia imensamente honrada por sermos parecidos. Você herdou muito mais de mim do que eu imaginava - ele dizia, ao me dar um beijo na testa e um abraço com cheiro de perfume de limão- a diferença é que tem mais coragem. Espero que nunca perca esse seu faro jornalistico e essa vontade de controlar o tempo.
Na estrada senti a velha Silverado 95 alugada mais leve. Era diferente andar pelas ruas naquele dia. Coloquei meus poucos pertences em uma caixa e paguei o aluguel do pequeno escritório que foi pouco útil nas minhas pesquisas. Mais uma missão cumprida, pensei ao colocar a caixa no carro. Pensei em ligar para o Bill, ele ia gostar de saber, mas lembrei do fuso horário e percebi que ele devia estar dormindo aquela hora. Talvez a única pessoa dormindo em pleno feriado de carnaval. As vezez eu me pego tentando entender certas coisas, como o fato de um país inteiro parar uma semana inteira para pular nas avenidas enquanto o mundo continuava ávido e vivo. Peguei o vaso de violetas e ivys que ganhei logo que cheguei a Forks. Eram as preferidas da vovó e as mais abundantes por ali. Vôvo ainda hoje mantém a casa cheia, numa tentativa desesperada de cultivar as lembranças. Tinha comprado as passagens para o dia seguinte.
Naquele dia antes de dormir pensei na minha conversa com o vovô e me lembrei de um trecho que Eragon*. Pensei nela também, as vezes dizendo que eu devia arrumar um emprego de verdade e ler um pouco menos. Que devia deixar de pesquisar a cura da estupidez humana e viver um pouco. Eu que nem consigo encontrar cura para as minhas. Era estúpido e irônico eu que não dava importancia ao que as pessoas achavam me sentir incomodada, mas afinal, ela era minha mãe. -Porque você não é normal como as outras moças, nem pelo mesmo se veste como elas, dizia na tentativa frustada de que uma vida fútil e sem graça fizesse parte das minhas escolhas..." As pessoas vêem as coisas de forma tão míopes. Mas decidi esquecer aquilo tudo, já que ninguém reponderia ás minhas dúvidas nem aquilo me deixaria mais feliz. Wiol pomnuria ilian. Para minha felicidade. O dia já devia estar reaindo quando finalmente consegui pegar no sono. Highway... novamente highway...

"Nunca deixem ninguém dominar seu corpo ou sua mente, tenham um cuidado especial para que seus pensamentos permaneçam livres. Um indivíduo pode ser livre, contudo pode estar mais preso que um escravo. Dêem seus ouvidos as pessoas, mas nunca o coração. Demostrem respeito a aqueles que estão no poder, mas nunca o sigam segamente. Julguem com lógica e razão, mas nunca façam comentários. Nunca considerem alguém como superior a vocês, não importa que posto ou situação eles tenham na vida. Tratem todos com justiça ou poderão querer se vingar. Tenham cauleta com o dinheiro. Atenham-se as suas crenças e os outros ouvirão. Quanto aos assuntos do amor... o meu conselho é que sejam sempre sinceros, é a ferramenta mais poderosa para abrir um coração ou ganhar um perdão.
(*trecho de Eragon - Christopher Paolini)

Sábado, 31 de Janeiro de 2009


A televisão apela demais disse antes de sair bater a porta em reprovação. O calor continuava infernal, por isso resolvi dar uma volta na orla, respirar um pouco de ar não condicionado e ver o espetáculo de céu alaranjado, o começo do crepúsculo. Comprei uma coca em um dos quiosques e sentei naquela pedra de sempre, faziam um bom tempo que não ia ali. Talvez - essa mania do talvez gruda em mim como um mormaço - a harmonia do tempo não tenha mais tanta graça, como o término de uma série de livros, que encerra a espectativa do próximo volume, apesar de eu não ser a Isabella Swan e do Eduard Cullen não existir. Não que eu ache que o tempo esteja se estagnando, mas sinto falta de um pouco de mistério, do não ter como prever, supor certas coisas. Como um ciclo vital idiota onde somos tentados nos gastar, para não fugir aos padrões, tão ridículos. Estava decepcionada com o final do livro, com a Danielli Minkoff, e principalmente por me ver um pouco em tudo aquilo, pequenos fragmentos de um final triste. Talvez devesse ser um pouco Bootie, ou talvez devesse me livrar dos personargens, mas no fim eles terminan se tornando partes de nós.
Os ultimos raios sumiam enquanto as pessoas passavam. Tinha ficado um bom tempo ali observando porque na volta para casa algumas lojas já estavam fechadas, e o sábio mendigo Sebastião com quem as vezes costumava conversar um pouco já estava dormindo na calçada da velha e inativa da fundação com seu cobertor amarrotado. Pensei que de alguma forma isso deve ser liberdade. Porque liberta de um trabalho cuja única finalidade seja o mísero dinheiro, que alimenta as futilidades das pessoas, dão a ilusão de uma falsa felicidade, mesmo sabendo que fora de suas residencias o mundo massacra. Eu não quero isso para mim, por isso que estou a procura de descobrir uma nova maneira, acho que está dando certo essas coisas de utopia, dormir na pia, supermetropia... Talvez fosse isso, em "súmula" que o Peterson Ronaldo, ou simplesmente o Foca diria.
Eu queria surfar...
:D